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Memórias e reflexões sobre a enchente de 2024

Rosana Cabral 



Em maio de 2024, as notícias mais difundidas nas mídias e jornais foram as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul. Os rastros dessa tragédia ainda podem ser visíveis nas ruas, nas escolas e na memória coletiva. Aproxima-se o primeiro aniversário do maior desastre já vivido pelo estado.


Diante desse cenário, trago aqui um dos muitos relatos publicados na época, com o intuito não apenas de refletir sobre o ocorrido, mas também de destacar a importância de discutir questões socioambientais, cada vez mais urgentes para a nossa sociedade.

Os diversos relatos noticiados eram semelhantes ao publicado pela Agência Pública, especializada em jornalismo investigativo:


"Destroços nas ruas, águas cobrindo bairros inteiros, lama, resgates, tumultos, medo e insegurança. Esse é o cenário em São Leopoldo, região metropolitana de Porto Alegre. A cidade se soma aos 431 municípios gaúchos atingidos pelo temporal que assolou o estado. Os números já são alarmantes por si só, mas a urgência aumenta quando nomes, vozes, rostos e histórias são acrescentadas à maior calamidade do Rio Grande do Sul."


Escolhi esse recorte para refletir a respeito da realidade vivida pela população. Em São Leopoldo, 180 mil pessoas foram atingidas diretamente pela enchente – um impacto enorme para uma cidade com cerca de 220 mil habitantes.



A enchente de maio de 2024 não apenas inundou boa parte da cidade, mas deixou marcas permanentes. São Leopoldo, berço da colonização alemã no Rio Grande do Sul, jamais será a mesma. As ruas e prédios carregam cicatrizes da água e da lama, enquanto boa parte da população vive sob o temor de que essa tragédia se repita.


Antes desse evento, a última catástrofe climática de grande escala na região ocorreu em 1941. Oito décadas se passaram e, ainda assim, poucos imaginavam que um desastre ainda maior poderia acontecer. Mas o que define uma catástrofe climática?


Pesquisadores como José Antônio Marengo e Philip Martin Fearnside afirmam que desastres naturais resultam de múltiplos fatores, incluindo a exploração de hidrelétricas, o desmatamento, a mineração e o agronegócio (USP, 2021). Esses fatores alteram o meio ambiente e tornam as populações vulneráveis a eventos extremos, forçando muitas pessoas a deixarem suas casas em busca de segurança.


O impacto humanitário da enchente foi devastador. Milhares de pessoas ficaram desalojadas, vivendo a dor e a incerteza, foram afetadas diretamente. Esse "afetar-se" é um processo que perturba, angústia e deixa marcas profundas. No pensamento filosófico, Spinoza (2009) relaciona o conceito de afecção à ideia de duração, afirmando que "a mente humana não conhece o próprio corpo humano senão por meio das ideias das afecções pelas quais o corpo é afetado" (p.113).


E foi assim que São Leopoldo se tornou uma cidade afetada, fragilizada pela força da água, que impactou diretamente 80% de sua população. Durante meses, as ruas testemunharam pilhas de entulhos: móveis, colchões, eletrodomésticos e, sobretudo, sonhos desfeitos.


As perdas não foram apenas materiais. Ao caminhar pela cidade, encontravam-se memórias silenciadas, registradas nas marcas de quase dois metros de água do Rio dos Sinos. As cicatrizes da enchente são viscerais: estão nas fachadas das casas e prédios, mas também na memória daqueles que viveram esse trauma. Algumas dores são invisíveis e podem ser mais profundas, a verdade é que não podemos hierarquizar a dor. 


Bachelard (1993) nos lembra que a principal função de uma casa, além de abrigar, é proteger. Ele define a casa como "nosso canto no mundo", nosso refúgio. Assim, a perda de um lar não significa apenas perder bens materiais, mas também memórias, desejos e sobretudo segurança — em resumo são sonhos que a água levou. "A casa é o lugar mais poderoso de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem" (p.207).


O impacto das enchentes também alcançou outro tipo de casa: a escola. A função do ambiente escolar vem sendo ressignificada ao longo do tempo, e pesquisadores discutem sua crise sob diversos prismas: político, pedagógico, democrático, econômico, social, cultural e ambiental. (Arendt, 2013; Barbosa, 2020; Laval e Verne, 2023).


Uma crise só se torna um desastre quando respondemos a ela com juízos pré-formados, isto é, com preconceitos. Uma atitude dessas não apenas aguça a crise como nos priva da experiência da realidade e da oportunidade por ela proporcionada à reflexão. (Arendt, 2013, p.02).


E é nesse ponto que a crise ganha contornos de desafio, especialmente no que se refere ao ambiente escolar: como reconstruir o processo de ensino-aprendizagem após uma tragédia climática? A resposta não é simples. Muitos estudantes ficaram meses sem acesso às escolas.


A crise educacional no pós-enchente vai além da estrutura física das escolas, do mobiliário e dos livros perdidos. Sem alunos, a escola não passa de um prédio coberto de lama, esperando por limpeza e reparos. Mais do que reconstruir paredes, é preciso reconstruir esperanças e garantir que as futuras gerações tenham o direito básico à educação, mesmo diante das adversidades.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 7a ed. São Paulo: Perspectiva, 2013.

 BARBOSA, Manuel Gonçalves. Educação e democracia: do risco de desarticulação a uma recomposição crítica. Cadernos de Pesquisa, v. 50, n. 177, p. 759-773, 2020.

BACHELARD, G. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

SPINOZA, Benedictus de. Ética. Trad. Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

A PUBLICA, 12/05/2024. Sessão clima socioambiental. Disponível em: https://apublica.org/2024/05/sao-leopoldo-a-cidade-gaucha-onde-quase-todos-perderam-o-lar/#_. Acesso em 09 jul. 2024


*Rosana Cabral *Rosana Cabral: Professora da Universidade do Vale do Rio do Sinos – UNISINOS, sócia proprietária da clínica Nutramente, psicóloga clínica na Mentevitale e no Instituto Somos+. Membro da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas e da Sinapse Cultural. É uma das Idealizadoras do Projeto "Formação em Prática". Formada em Pedagogia (FURG), Psicologia – UNISINOS, Especialização em Transtorno do Espectro Autista (TEA) - Child Behavior Institute, (CBI OF MIAMI), Terapias Cognitivo comportamentais (WAINER), Educação Especial e Atendimento Educacional Especializado (DOM BOSCO), Psicopedagogia Clínica e Institucional (FACVEST), Aplicadora ABA, Mestra em educação (FURG) e doutoranda em Educação pela UNISINOS.



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